Comentário Técnico ATLAS

O que importa aqui não é a viagem de estudo em si, mas o que ela revela por trás: o Reino Unido nunca construiu uma usina de osmose reversa marinha em grande escala, e a Anglian Water sabe que não tem essa expertise internamente. É por isso que o contrato técnico de £29 milhões para as duas usinas planejadas em Norfolk e Lincolnshire foi para uma parceria TYPSA-Stantec, e não para uma equipe exclusivamente britânica — a TYPSA atua há anos em projetos de dessalinização na Espanha, e a Anglian agora se apoia na Acciona, por meio de sua Desalination Technology Partnership, para obter know-how de projeto-construção-operação que simplesmente ainda não consegue obter internamente. Para fornecedores de equipamentos e tecnologia, isso importa porque significa um terreno genuinamente aberto. Não há uma base de fornecedores britânicos de osmose reversa marinha já instalada para deslocar, nem relações contratuais herdadas de uma geração anterior de usinas — quem conseguir se especificar nesses dois primeiros projetos tem uma chance real de definir o modelo para o que vier depois.

Também vale destacar: as usinas que impressionaram a delegação britânica em Alicante e Torrevieja foram projetadas para água de captação mediterrânea, quente, com alto teor de sólidos dissolvidos, processada por dispositivos de recuperação de energia isobáricos ajustados a essa química. O Mar do Norte é outra história — mais frio, com comportamento de turbidez e biofouling diferente, e um regime de descarte marinho no Reino Unido que não é igual ao da Espanha. Os dados das usinas espanholas não se transferem de forma direta. Fornecedores que conseguirem demonstrar desempenho de membranas em água fria e referências de pré-tratamento relevantes para o Mar do Norte terão um argumento real a apresentar à equipe de engenharia da Anglian; fornecedores cujos únicos estudos de caso sejam mediterrâneos ou do Golfo precisarão fazer um trabalho de tradução adicional.

Os números de demanda por trás disso também merecem atenção. O próprio Plano de Gestão de Recursos Hídricos de 2024 da Anglian projeta um déficit de 593 megalitros por dia para o leste da Inglaterra até 2050 sem intervenção — aproximadamente metade do que atualmente circula pela rede. A Anglian é atualmente a única concessionária de água inglesa comprometida com nova dessalinização sob o AMP8, mas o diretor-executivo da RAPID já fala de um déficit de 5 bilhões de litros por dia para a Inglaterra até 2055. Se as duas usinas da Anglian forem entregues no prazo e dentro do orçamento, é de se esperar que outras concessionárias que atendem regiões secas e de rápido crescimento comecem a fazer as mesmas perguntas no AMP9 — provavelmente onde está a oportunidade maior, de segunda onda, para essa cadeia de suprimentos.


Resumo da Notícia

Uma delegação do setor de água do Reino Unido retornou de uma viagem à Espanha organizada pelo Water Research Centre (WRc, parte do RSK Group), reunindo representantes da Anglian Water, da Cranfield University e da Regulators’ Alliance for Progressing Infrastructure Development (RAPID) com contrapartes do Ministério para a Transição Ecológica e o Desafio Demográfico da Espanha, ACUAMED, ICEX, Universidade de Alicante, Associação Espanhola de Dessalinização e Reúso (AEDyR) e a Embaixada Britânica na Espanha.

A Espanha é a maior produtora de água dessalinizada da Europa e a quarta maior do mundo, com mais de 20 anos de experiência em centenas de usinas que juntas produzem cerca de 5 bilhões de litros por dia. A delegação visitou a usina de dessalinização de água do mar de Alicante, que fornece 122,5 milhões de litros por dia a moradores, turistas e empresas da região, e a usina de Torrevieja — a maior da Europa — que produz até 240 milhões de litros por dia para cerca de 1,6 milhão de pessoas na região de Vega Baja e utiliza dispositivos de recuperação de energia isobáricos de alta eficiência para reduzir o consumo de energia. O grupo também realizou mesas-redondas sobre questões regulatórias e ambientais na Universidade de Alicante e com o Ministério da Transição Ecológica em Madri.

A visita ocorre enquanto a Anglian Water se prepara para construir as primeiras usinas de dessalinização de água do mar em grande escala do Reino Unido, em Norfolk e Lincolnshire, para fechar uma lacuna de abastecimento que seu Plano de Gestão de Recursos Hídricos de 2024 atribui à queda no fornecimento disponível e ao aumento da demanda no leste da Inglaterra — um déficit projetado de 593 megalitros por dia até 2050 sem intervenção. As usinas captarão água do mar do Mar do Norte, tratando-a por pré-tratamento, osmose reversa e remineralização, e dispersarão a salmoura por meio de um emissário submarino longo com difusores. A Anglian é atualmente a única concessionária de água inglesa construindo nova capacidade de dessalinização sob seu programa de investimento AMP8.

Sian Thomas, Diretora de Gestão Estratégica de Ativos da Anglian Water, disse que ver a tecnologia funcionando em escala em Alicante foi valioso justamente porque a dessalinização é nova tanto para o Reino Unido quanto para a Anglian Water, e que o envolvimento dos reguladores na visita foi uma parte importante para construir apoio às novas usinas. Paul Hickey, Diretor-Executivo da RAPID, apontou um déficit projetado de 5 bilhões de litros por dia para a Inglaterra até 2055 como o motivo pelo qual o setor precisa diversificar suas opções de abastecimento, incluindo dessalinização e reúso de água, e chamou a visita à Espanha de uma oportunidade de aprender diretamente com a maior produtora de água dessalinizada da Europa.

Em janeiro, a Anglian Water concedeu um contrato técnico de £29 milhões para as duas usinas a uma parceria TYPSA-Stantec; a TYPSA atua no mercado europeu de dessalinização, inclusive apoiando as próprias usinas espanholas, enquanto a Stantec é uma consultoria líder em projeto e engenharia para o setor de água do Reino Unido. A Anglian também trabalha com a Acciona, uma grande empresa global de projeto-construção-operação de dessalinização, por meio de sua Desalination Technology Partnership, que apoiará projeto e engenharia, seleção de local, planejamento e licenciamento, aquisição de terrenos e relacionamento regulatório ao longo do programa.


Atribuições de Mídia e Fontes: Este relatório é baseado em reportagem publicada originalmente pela Water Magazine em 28 de julho de 2026, com informações da Anglian Water: “UK water sector turns the tide on desalination with visit to Spain”.